Criatividade infinita
Ele criou dezenas de personagens, suas histórias em quadrinhos ganharam o mundo e, hoje, aos 71 anos, ele revoluciona a maneira de se fazer animações no Brasil. Para Mauricio de Sousa, o desenho é mais do que uma paixão, trata-se também de responsabilidade social. Por meio da Turma da Mônica, do Chico Bento, do Piteco, da Tina e outros, ele retrata comportamentos típicos de cada geração e busca passar valores como a lealdade, a amizade, a honestidade e a importância de ser feliz.
Quantos personagens o senhor já criou? Qual será o próximo a entrar nos gibis?
São cerca de 250. O último estreou em julho, na revista do Cebolinha. Trata-se do António Alfacinha, um “miúdo” português, que fala com a Turminha no português lusitano. Vai render boas piadas.
Qual o seu personagem preferido e por quê?
Não tenho um personagem favorito. Cada um de meus personagens tem um pouco de mim. É como dizer que se gosta mais de um filho do que de outro.
Você costuma aparecer em algumas histórias da Turma para dialogar com seus personagens. Isso é idéia sua?
Na verdade, são nossos roteiristas que fazem essas histórias. É um artifício gostoso, que dá um sabor diferente às histórias.
Como é seu processo criativo?
Nunca tive um processo criativo. Eu simplesmente sentava à frente da prancheta e as idéias vinham.
A Turma da Mônica ganhou seu próprio parque temático. Era um sonho seu?
Um deles! E como este já está realizado, vou em busca de outros. Um novo Parque da Mônica, que deverá ter também brinquedos aquáticos, será construído nos próximos dois anos na Praia Grande, litoral de São Paulo. Vai ser uma beleza de empreendimento.
O que é fundamental para se trabalhar com HQ?
Não só em HQ, mas em qualquer ramo de atividade: amar o que faz. Gostar não basta. É preciso amar!
Como o senhor avalia a produção brasileira de HQ?
Poderia ser bem maior. Basta ver que temos tantos quadrinhos em bancas, mas, tirando a Turma da Mônica, poucos são produzidos aqui.
Quais seus próximos projetos?
Nossa, são tantos. Mas, resumindo: novos desenhos animados para cinema e TV, internacionalizar cada vez mais nossos personagens e usar a Turma da Mônica em trabalhos educacionais.
O senhor ficou afastado dos cinemas durante um certo tempo. Como foi voltar a fazer um filme, e ainda com novas técnicas de animação?
Foi maravilhoso, pois a Turma da Mônica precisa estar no cinema. E a criançada do Brasil inteiro quer isso. Por isso, agora teremos longas-metragens em animação com mais freqüência, sempre com a mesma alta qualidade de Uma Aventura no Tempo, que foi visto por mais de meio milhão de pessoas.
É difícil fazer animação no Brasil?
Infelizmente, sim. Apesar de termos bons animadores e alta tecnologia, os custos são elevados demais. Sem incentivos ou patrocínios é difícil produzir.
Pretende lançar Uma Aventura no Tempo no Exterior?
Sem dúvida. Tanto que o DVD sai com legendas em espanhol e inglês. E em Libras, a linguagem brasileira de sinais, também.
Há planos de relançar os filmes anteriores em DVD?
Sim, estamos estudando essa possibilidade.
Uma Aventura no Tempo tem a presença de muitos personagens de turmas diferentes, o que não ocorreu nos filmes anteriores. Esse era um projeto seu? Sem dúvida. A Turma da Mônica não deve parar nunca de receber novos (e bons) personagens.
O que destacaria de mais positivo no filme?
O roteiro foi o ponto forte e mostrou (para quem ainda tinha dúvidas) que a Turma da Mônica tem, sim, fôlego para aventuras longas. E foi justamente isso que conquistou quem assistiu.
A obra também tem a participação de personagens novos, como a Dorinha e o Luca. Qual a importância desses personagens para a Turma e para as crianças em geral? Eles foram inspirados em alguém?
A Turma da Mônica sempre mostrou a vida como ela é entre a criançada. E no dia-a-dia existem crianças portadoras de deficiências. Por isso, estudamos bastante, para que não houvesse preconceito e para que pudéssemos passar para nossos leitores que essas crianças são como quaisquer outras. O Luca e a Dorinha (vale lembrar que o Humberto já está na Turma há anos) brincam e se divertem para valer com seus amigos. A Dorinha foi inspirada em diversas pessoas cegas com quem conversei. Mas teve o “desenho” final a partir do meu encontro com a Dorina Nowill, presidente da fundação que leva seu nome. O Luca foi inspirado em vários cadeirantes com quem tive contato. Aliás, todos os cadeirantes que conversaram comigo me passaram uma sensação de alto-astral. Fiquei admirado e passei isso para o personagem.
Por todo o alcance que a Turma da Mônica tem com o público infantil, o senhor procura nos quadrinhos, além de divertir, ensinar. Sempre foi preocupação sua transmitir algo bom? Que valores procura passar?
Essa preocupação sempre existiu, mas é algo que se acentuou à medida que descobri que minhas revistas eram usadas por professores para educar crianças Brasil afora. Por isso, os principais valores que procuramos passar são a lealdade, a amizade, a honestidade e a importância de ser feliz.
Há alguns anos, as histórias mostravam comportamentos diferentes dos personagens. Hoje, o Cascão, por exemplo, não brinca mais no lixão. Por que essa mudança?
Porque certos tipos de comportamento não são mais aceitos pelo público. Brincar no lixo, por exemplo, não seria uma sugestão que eu faria para um filho. Ou para qualquer filho de qualquer família. Nossos personagens mantêm suas características básicas de personalidade, mas algumas formas de agir foram deixadas para trás. Nas histórias e na vida real. Um exemplo: o balão. Quem, em sã consciência, hoje, sai por aí soltando balões?
No que sua experiência como jornalista contribuiu com sua carreira como desenhista?
O jornalismo me ensinou a ser conciso, objetivo, a ir direto ao assunto. Passei pouco mais de cinco anos trabalhando como repórter policial da Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo). Só depois disso, em 1959, é que estreei como desenhista ao publicar a primeira tira do Bidu.
O que o desenhista americano Will Eisner significou na sua carreira?
Eisner foi um mestre. O Espírito era meu quadrinho favorito quando garoto. Ele me ensinou que nas HQs podemos ousar em cima do que já é considerado ousado.
Quando o senhor decidiu criar a Mauricio de Sousa Produções? Foi difícil passar seus personagens para outras pessoas?
Foi um processo natural. Com o aumento da demanda pelas minhas tiras (inicialmente), tive que contratar pessoas para me ajudar. Primeiro passei a arte-final (a aplicação do nanquim sobre o lápis), depois os desenhos e, enfim, os roteiros. Dá uma pontinha de dor no coração, mas o pessoal do estúdio trata meus “filhos” tão bem quanto eu.
A exposição Impublicado, disponível no seu site, fala sobre os trabalhos que nunca saíram do papel. Poderia falar sobre alguns deles?
Ah, belos trabalhos que, mesmo não dando certo, nos ensinaram muita coisa. Os Impublicados (Beatles for Kids, Dieguito Maradona etc.), que infelizmente não tiveram andamento, quem sabe… um dia?
Poderia falar um pouco sobre o trabalho do Instituto Cultural Mauricio de Sousa?
Criei o Instituto Mauricio de Sousa com o objetivo de desenvolver programas e campanhas nas áreas de educação, saúde e meio ambiente. Desde então, foram desenvolvidas dezenas de projetos. Sempre com sucesso. Isso porque o trabalho é sempre pensado de acordo com o desempenho da criança, que é convidada a participar de importantes programas sociais e educativos. A estratégia didática é apostar que o aprendizado não exige esforço. Basta que a criança seja motivada e estimulada por todo esse universo lúdico e fantástico dos personagens da Turma da Mônica.
Como surgiu a idéia de transformar o Ronaldinho Gaúcho em personagem? Pretende levar para os quadrinhos outras personalidades?
A idéia surgiu devido ao êxito que o Ronaldinho Gaúcho vem tendo no futebol nos últimos anos. E como o craque do Barcelona sempre foi fã da Turma da Mônica e queria virar personagem, tudo ficou mais fácil. O Ronaldinho Gaúcho personagem é um grande sucesso no exterior.
Sobre novos personagens, há planos de fazer uma família negra? Como ela seria?
Já estão desenhados, mas estou “fechando” as últimas informações criativas para marcar o lançamento.
E a revista da Mônica adulta?
Não é exatamente a Mônica adulta, mas… mais crescidinha. Está em desenvolvimento.
Algum de seus filhos seguiu a mesma carreira que o senhor? O que eles fazem atualmente?
A Marina, minha filha de 22 anos, deve ser minha sucessora na parte artística. Alguns de meus outros filhos também trabalham comigo. A Mônica é diretora da área comercial, a Vanda trabalha com projetos especiais e a Mariângela no Instituto, por exemplo.
Você pretende realizar programas de TV com a Turma?
Claro, e deveremos ter novidades a esse respeito logo, logo.
Haverá mudanças no Portal?
Também estamos estudando uma total reformulação no Portal da Turma da Mônica. Nossos fãs não perdem por esperar.
Bate-bola:
Hobby: Fotografia.
Mania: Estou procurando.
Mauricio no dia-a-dia: Traços, desenhos, rabiscos…
Personalidade que admira: Todos os meus amigos.
Livro: O último que coloco na cabeceira.
Autor: Gabriel García Márquez.
Paixão: Diluo minha paixão em tudo que faço na vida.
Personagem que gostaria de ter criado: Calvin, de Bill Watterson.
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Por Andréia Odriozola
Foto: Divulgação Mauricio de Sousa Produções
Publicado em 1º de setembro de 2007, no Jornal Clube do Aposentado Panvel
Filed under: entrevistas | 4 Comments
Tags: animação, entrevista, HQ, Mauricio de Sousa, quadrinhos, Turma da Mônica, Uma Aventura no Tempo

adorei!!
Olá o meu pai também é desenhista, e eu logo logo também vou ser, vc conhece algum programa de desenhar? se alguém souber mim dis ta serto obg…
pait neah ¬¬
haushs
ow alguem aeh sab ond eu axu tirinhas da dorinha e do luca?!?!
vlw ^^
Muito bom esse site tem de tudo da Turma da Monica