A morte de Dercy Gonçalves me deixou comovida. Aos 101 anos, ela ainda esbanjava aquela célebre ironia e não perdia a oportunidade de deixar boquiabertos os jornalistas. Fui um desses casos, ano passado, quando a entrevistamos para uma edição especial do extinto Jornal Clube do Aposentado Panvel. A ocasião era o centenário da atriz e, como dá para imaginar, disputávamos um lugar na agenda dela com dezenas de repórteres.

Nossa missão era a seguinte: convencer a Dercy a nos dar uma entrevista longa, que seria publicada em formato pingue-pongue. A bronca maior ficou mesmo com a Miqueline, que trabalhava comigo. Lembro bem de como ela saiu vermelha da salinha do telefone, bufando de tanta raiva porque a assessora da Dercy não queria colaborar conosco. Foram várias tentativas, até que elas acenaram com uma possibilidade: dariam a entrevista, com a condição de que comprássemos o novo DVD da Dercy! Eu já não sabia se ria ou se chorava, e a Mique repetindo que não era possível algo assim, que não deveríamos aceitar esse tipo de chantagem! O pessoal da redação ria até não poder mais, e o responsável pelo financeiro disse, afinal, que compraria o tal DVD só para matar a curiosidade! Enfim, ela nos deu a esperada entrevista, mas montar o texto foi outra odisséia…

- Ela não disse coisa com coisa! – era a reclamação mais comum da Mique. – Não tenho como redigir isto de maneira que faça sentido!

Ah, sempre se dá um jeito… Temos que fazer dar, não é? Aí, quando li o primeiro rascunho, caí na gargalhada. Difícil tarefa essa, a de editar os palavrões! Deixava ou não? Por mim, óbvio que deixava, mas sabia que não passaria pelo crivo do cliente. Uma das frases mais engraçadas e ordinárias que li foi essa:

- Só não transei com Deus porque Ele não quis!

Publico agora porque foi justamente o que me deu mais pena cortar naquele momento! Mas antes de fechar a matéria, liguei novamente para a assessora para ver a questão da “compra” do DVD. Ela me passou o telefone para a própria Dercy!

- E quantos vocês vão querer? – perguntou ela, me fazendo engasgar.

- Por enquanto, só um…

- Ah, mas eu achei que iriam querer uns 20, vocês são quantos mesmo aí?

- Quem sabe depois a gente não encomenda mais? E além disso a matéria faz uma chamada para o DVD. – desconversei.

- Eu não quero publicidade, quero vender!

E não é que ela tinha razão? Hahahaha Naquela idade ela queria mais era usufruir o dinheiro! Enfim, nossa conversa continuou por mais um tempinho e, quando ela “lembrou” que a entrevista era para um jornal de Porto Alegre, disse simplesmente que adorava o Sul, que tinha ótimas recordações daqui e que por isso não iria cobrar a compra do DVD! Desliguei o telefone e me virei para a minha colega:

- Mique? Tu tinha razão. Ela não fala coisa com coisa…



3 Responses to “Minha conversa com Dercy”  

  1. 1 Lulu

    hahahahahahahaha
    que figurinha! adorei.

  2. 2 Bia

    Deia! Tu tens um blog e eu não sabia.
    Descobri pela Luísa.
    Adorei esse teu obituário da Dercy.
    Como diz minha avó de 104, era uma velha sem-vergonha e chata.
    Adorei essa história do DVD.
    Beijoca!

  3. 3 deia

    Hahahaha Pois é, Bia! É que eu não espalhei muito, não! Mas viu que coloquei o link para o teu blog ali do lado, né? Tô te devendo comentários há horas!
    Quanto à Dercy, que bom que fiz vocês rirem com essa história. Sabe que foi uma das coisas mais nonsense que já me aconteceram no jornalismo? Tenho lá minhas dúvidas de que teria sido diferente caso ela fosse mais jovem. Acho que ela teria insistido em me enfiar o DVD-tortura de qualquer maneira! hahahahaha
    Beijão!


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