Eu sei que estou devendo milhões de histórias por aqui. Poderia ficar horas escrevendo sobre o sapato voador do Jorge Aragão, sobre arrogância do Miguel Falabella, sobre o fã da Juliana Baroni que não me deu sossego ou mesmo sobre a incrível disposição do ultramaratonista Dean Karnazes. Mas quer saber? O Jorge Aragão quase me fez surtar, o Falabella quase me fez vomitar, o fã quase me fez fugir e o Dean Karnazes, bem, por mais resistente que ele seja, não tem graça alguma ver um cara correr numa esteira. Por isso, resolvi falar hoje sobre um filhote de sabiá.
Sim, sabiá. Ahn? Como assim? No que um passarinho pode ser interessante?
Em muita coisa, oras! Já viram um ninho de sabiá? Não de longe, de pertinho mesmo. Eu já vi milhares, eles fazem a festa na paineira nos fundos do meu prédio. Mas o filhote em questão nunca viu essa árvore, ele nasceu na garagem, no ninho que mamãe e papai sabiá construíram em cima do encanamento do esgoto. Temos que dirigir controlando o chão o tempo todo, e até cartaz na porta colocamos: “Cuidado para não atropelar os bichinhos”.
Não, não, eu não me joguei na frente de um carro para impedir que os filhotes virassem patê. Apenas tive um prazer raro neste final de tarde. Estava chegando em casa quando vi um dos nenês sobre um capô. Assustado, o pequenino quis voar, mas se atrapalhou e prendeu sem querer a patinha em uma das frestas do automóvel. Desesperado, começou a se debater, e eu entrei em pânico. Precisava fazer algo antes que ele quebrasse os dedos ou se esborrachasse no chão. Um, dois, três. Respirei fundo e lá fui eu socorrer o coitadinho. Para minha surpresa, ele deixou que eu o pegasse. Tentei acalmá-lo na medida do possível e soltei com delicadeza a patinha. Ele não tentou escapar, pelo contrário, pousou na minha mão e ficou uns quantos instantes ali. Era eu olhando para ele e ele para mim. Até que finalmente bateu as asas e voou.
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